Aquele que se perde sem se ter (poema)

 Perguntam-se eles o que é o tempo:

“O tempo? O tempo é uma quarta dimensão,
Casado com as áreas empíricas,
Braço direito da experiência,
Da evolução biológica, do ciclo das rochas.
Algo manipulável pela força gravítica,
Tal como um mero brinquedo na mão de uma criança.
Algo que se pode medir,
Mas que não é controlável por ninguém.”

“O tempo? O tempo é uma vertigem,
Agarrado a uma linha no horizonte,
Muito longe, fora do nosso alcance físico,
Mas tão próximo, adiante na nossa viagem.
É medo, mudança, impiedade,
Um rigor que nunca para.”

“O tempo? O tempo é uma trança
Cheia de nós e de laços,
De ciclos e de repetições imutáveis
Face aos desafios que a vida lança.
Tudo faz repetir, todo o escondido faz amanhecer,
Tal como a Lua que todas as manhãs se esconde
Só para voltar a aparecer.”

Mas o tempo, o tempo…
Afinal, o que é o tempo?

O tempo? O tempo possui as pessoas,
Leva-as agarradas no seu passo a galope,
Imparcial e rigoroso, mas leve.

As pessoas? As pessoas possuem o tempo,
Levando-o agarrado nas suas rugas
Sabedoras e vividas, mas pesadas.

Porque, na verdade, as pessoas são o tempo
E, por sua vez, o tempo são as pessoas.

António Cardoso
2023


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