Cordas Portuguesas (crónica)

Odeio mudar cordas.

Acredito que muitos guitarristas, como eu, têm a mesma opinião. A mudança das cordas é daquelas coisas que só se fazem quando não é possível esperar mais, porque, pura e simplesmente, é uma chatice.

Nas guitarras elétricas, o processo não é muito difícil: retira-se a corda usada, desapertando o “parafuso” da cabeça (um daqueles seis pinos que aparecem na cabeça da guitarra e que servem para afinar o instrumento); pega-se na nova corda e coloca-se no buraco do cavalete; puxa-se para perto do tal “parafuso” e põe-se no furo do mesmo. Depois, é só apertar a corda.

Nas guitarras de aço, o processo complica-se um pouco. É exatamente o mesmo. A única diferença é que, no cavalete, se tira um pino e a bolinha da corda é colocada no sítio de onde o pino foi tirado. Em seguida, põe-se o pino novamente, para que este agarre a corda. O único problema é que é preciso um alicate para tirar este pino. Acredito que esses alicates pressentem quando vou mudar cordas, porque nunca os encontro.

Já tirei esse pino de tantas formas! Acho que a mais estranha foi quando recorri a uma tampa de caneta, que pus no sítio do pino e fiz uma espécie de alavanca. Não deu muito resultado, já que a tampa se partiu!

Nas guitarras clássicas, ainda mais complicado se torna. Em vez de pinos, esta tem laços. Põe-se a corda no cavalete e dá-se vários nós, para que esta não desafine. Mas, em questão de laços, a guitarra portuguesa ganha.

A Guitarra Portuguesa! Acho que quem fez a forma de lhe trocar as cordas fez de propósito para aumentar o ódio no mundo. Primeiro, o cavalete não está colado no tampo, ou seja, não se podem tirar todas as cordas duma só vez. Segundo, as cordas partem-se com uma facilidade extrema. Terceiro, se se não fizer corretamente a mudança, têm de se comprar cordas novas.

Explicando o processo, a corda é posta numa pega ao fundo do tampo da guitarra e é puxada para o leque, passando pelo sítio dela no cavalete. O parafuso sem fim correspondente (aqueles “parafusos” que se encontram no leque da guitarra e que servem para afinar) tem de estar todo para baixo, para que se faça um vinco na corda. Depois, tira-se a corda e pega-se num alicate específico, igual a todos os outros, menos numa pega, onde a corda é colocada, e numa manivela, que a roda para fazer um lacete. Põe-se a corda nesse alicate, tendo em conta o vinco. Depois, com o lacete feito, fazem-se mais vincos e nós abaixo deste, para que não se desenlace. Volta-se a pôr a corda no sítio e faz-se uma força de deuses para conseguir chegar com ela ao parafuso sem fim. E mais uma coisa: repetir isto doze vezes!!

O grande problema disto é que não nos podemos enganar em nada. Por exemplo, se fizermos o lacete muito enlaçado, a corda pode-se partir. Porém, se fizermos o lacete enlaçado de menos, ele corre o risco de desenlaçar. Outro exemplo é quando se faz mal o vinco, a corda acaba por não conseguir chegar no leque. E o que se faz quando isto acontece? Deita-se fora a corda e compra-se uma nova.

Bem, é claro que vale a pena fazer a mudança das cordas. Uma guitarra com cordas novas é como uma fénix que renasce das cinzas. Mas isso não retira o facto de a manutenção deste instrumento ser uma chatice. Quase que apetece ir a um luthier no Serra da Estrela para que eles mudem as cordas, coisa que daria uma grande despesa no final do mês.

Porque já não era pouco fazer a mudança das cordas, ainda tinha de se repetir várias vezes. Porém, acredito que ninguém a faça assiduamente. Acho que todos esperam bastante tempo até tomarem a decisão de mudar as cordas.

Outra coisa que também se deve ter em conta é o verdete. Por vezes, com o uso, a parte de baixo das cordas acumula uma sujidade verde a que se chama de verdete. E é preciso estar constantemente a limpá-las e a tratar a guitarra com muito rigor e carinho. Eu, sinceramente, não limpo muito o verdete das cordas. Não tenho nenhuma razão para isso. Talvez lhe dê pouco descanso.

Creio que com esta crónica vos tenha deixado a refletir sobre a mudança de cordas portuguesas. Sinceramente, são as únicas que mudo. Faço por deixar as outras guitarras na loja, para que sejam eles a fazer o trabalho por mim. Penso que não serei o único a fazê-lo, uma vez que há tantos guitarristas no mundo!

António Cardoso
2020

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