Amnésia Judicial Aguda (crónica)

Se as paredes, as cadeiras e as mesas dos tribunais pudessem falar e contar tudo o que ouviram, de certeza que a sua grande sabedoria seria muito monótona:

Sempre o mesmo discurso de entrada, a explicação do caso, o depoimento do advogado de acusação, do advogado de defesa, das testemunhas (que tendem a não concordar com o advogado de defesa) e do arguido. Em seguida, mais algumas perguntas de acusação, umas respostas de defesa, um adiamento da audiência e a pena final.

“Não sei! Não me lembro!” seriam as frases mais presentes nas crónicas da mobília de uma sala de audiências de um tribunal, seguidas de “Eu não fiz nada!” e de “Esse dinheiro era do meu amigo!”. O papel de interlocutor pertenceria ao arguido e seriam estas as mensagens que fariam as crónicas da mobília tão entediantes.

Eu, sinceramente, acho esta monotonia muito preocupante. Lembra-me doenças horrorosas que põem as pessoas envolvidas num enorme nevoeiro mental, onde se perdem entre pensamentos e ações. Existem casos de pessoas que esquecem que possuem garagens inteiras no Funchal! Então, como me importo bastante com a saúde de todos os portugueses, acho plausível investigar. Era espetacular que as mobílias falassem, poupariam muito trabalho. Mas, como não falam, é preciso um pouco mais de esforço humano.

Visto que esta disseminação de esquecimentos nos tribunais é um grave problema que assola todo o país, somente uma grande operação poderá acabar com ela. Então, fica aqui presente neste documento a minha opinião de como deverá ser a ordem de trabalhos.

Parece-me que devíamos começar por investigar as salas dos tribunais de todo o país. Iniciaríamos por ver as propriedades físicas e químicas da água servida lá, para ver se era mesmo somente “água” e não “água com qualquer coisa”. Em seguida, veríamos as turbinas de ar e os ares-condicionados, para ver se segregam qualquer gás tóxico. Também investigaríamos as secretárias, as cadeiras e até os papéis, já que poderiam ter qualquer elemento alucinógeno ou amnéstico na produção.

Em segundo lugar, investigaríamos os amigos dos réus. Não seriam todos os arguidos, mas sim aqueles que estão a ser julgados por branqueamento de capitais, corrupção e por gastar o dinheiro do amigo com todo o seu consentimento. Não seria difícil, existem imensos corruptos a serem julgados neste país. A minha teoria é que quantos mais amigos o arguido tem, maiores os esquecimentos são.

Também se devem investigar os membros mais próximos da família, como a mãe e o pai, já que podem ter muito dinheiro fechado num cofre e que, como muito esmero, o guardaram e pouparam durante a vida toda. Sei que não parece nada de grave, mas parece-me também que quanto mais dinheiro guardado nesse cofre, mais esquecimentos ocorrem.

Em terceiro e último lugar, investigaríamos todos os outros presentes na sala de audiências: o juiz, os advogados de acusação e de defesa e o júri. Poderiam todos fazer parte de um grande esquema, cujo objetivo era somente acusar o arguido de coisas que ele não fez ou não se lembra de fazer. Não percebo muito bem o motivo disso, mas é sempre bom investigar.

No meu entender, estamos perante uma nova síndrome: a amnésia judicial aguda. Não sei quais são as causas, mas tenho a certeza que é uma grave doença que, mesmo ajudando o doente, prejudica o povo português. Graças a ela, cada vez mais corruptos se encontram em liberdade e, por isso, considero plausível começar a investigar um medicamento o mais rápido possível.

Rezemos para que ele prescreva somente depois do crime…
António Cardoso
2021

Fonte da imagem: https://imprensafalsa.com/reforma-do-sistema-judicial-se-for-governo-ps-promete-dar-um-martelo-de-juiz-a-cada-portugues/






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