Grafite (poema)

É difícil saber quantos são
Os pensamentos que por uma aula
Se pensam em transgressão
À matéria que é nela dada.
 
Muitos, com certeza,
São bastante insensatos
Mas os de Sofia
Eram muito mais abstratos
 
“Será possível, nalgum dia,
Podermos voltar ao passado
E, assim, corrigir erros que os nossos
Cometeram, precipitados?”
 
E, do nada, um lápis
Foi-se aproximando da mesa,
Saindo da mão de Sofia,
Caindo em câmara lenta.
 
Mas Sofia não reparou,
Continuando a perguntar:
“Conseguiremos, com a ciência,
Todas as doenças curar?”
 
O lápis encontrava-se agora
A colidir com a mesa.
Aparentava agressividade
Mesmo sendo uma queda serena
 
Tocou com o bico na tábua,
Fazendo força para partir.
Mas rapidamente caiu para trás
Deixando Sofia a reflexão prosseguir
 
“Conseguiremos ser mais rápidos
Do que hoje agora somos?
E conseguiremos ir mais longe
Do que alguma vez fomos?”
 
O lápis realizava agora rolamentos,
Dirigindo-se para o fundo.
Realizava isto tão rapidamente
Que tinha feito metade num segundo.
 
“E mudar os nossos hábitos,
Antes que seja tarde demais?”
(O lápis saía agora da mesa,
Pois nela não conseguia rolar mais)
 
Mas, aí, Sofia voltou ao mundo.
Arqueou o braço firmemente
E agarrou o lápis no mesmo segundo.
Levou-o à cara e sorriu:
 
Segurava, com as mãos juntas,
A resposta às suas perguntas.
António Cardoso
2021

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