É costume dizer-se que “os guarda-chuvas dão azar”. Acho o contrário: eu é que dou azar aos guarda-chuvas!
Creio que nunca tive um guarda-chuva decente. O melhor que tive era grande e verde. Mas, mesmo assim, apenas o levei para a escola uma vez (roubaram-mo). Costumo comprar aqueles pequenos, de mola, que cabem dentro da mochila. Mas a qualidade deles é duvidosa.
Primeiro, apenas guardam da cintura para cima – o que eu acho completamente incompreensível. Já existem guarda-chuvas desde o séc. XVIII! Será possível que não tenham evoluído nada desde aí?
Segundo, viram-se muito com o vento – o que é uma verdadeira chatice. Tem de se andar com a guarda-chuva tombado, contra o vento, para que não se vire.
Terceiro, as varetas deles partem-se com uma facilidade extrema. É só preciso que uma atrevida rajada de vento mais forte venha e já foram meia dúzia de varetas para o maneta!
O meu novo chapéu já tem uma história para contar! Uma vez, num dia de chuva, tive de sair da aula de Português para ir à biblioteca. Como a biblioteca era num pavilhão diferente da sala, tive de abrir o chapéu para passar pelo pequeno temporal. Na ida correu tudo bem, mas na volta…
Para abrir este chapéu, tinha de se puxar o ferro dele. Assim ficava maior e conseguia levar, pelo menos, uma pessoa. Porém, quando puxei o ferro, gerou-se um milagre da multiplicação. O guarda-chuva, que era só um, passou a ser dois. Tive de voltar a encaixá-los. Serviram para a volta à sala, pelo menos.
Quando cheguei a casa, dei a infrequente notícia à minha família. O meu pai conseguiu arranjar a situação, pondo, no sítio onde o chapéu tinha partido, um parafuso. Ainda serve para os dias de pouca chuva.
Se bem que, há tempos, o parafuso agarrou-se a um dos ferros. Conclusão, não conseguia abrir o guarda-chuva. Tentei abri-lo com cuidado, mas quando isso não resolve, recorre-se à força. Consegui abri-lo com o segundo recurso e, agora, uso-o razoavelmente bem.
A história dos meus chapéus é quase sempre a mesma. A minha mãe compra-me o guarda-chuva; eu levo-o para a escola, onde ele se parte e, quando chego a casa, o meu pai trata do conserto.
Por quê esta qualidade? Será pouco investimento na indústria? Ou será no desenho? Não sei. Mas, às vezes, penso que é algo que apenas acontece comigo. Vejo os meus colegas com os mesmos guarda-chuvas durante semanas, meses e até anos! Não percebo. Tenho de lhes perguntar onde os compram.
De qualquer forma, fica aqui manifestado o meu protesto. Acho completamente absurdo os guarda-chuvas serem tão defeituosos. Mas, também, posso estar redondamente enganado. Se calhar, sou eu que dou azar aos guarda-chuvas.
António Cardoso
2021

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