Naquela tarde, numa hora em que o céu azul se demonstrava seco e
triste na cidade, Dona Arminda teve uma ideia:
- E se fizéssemos um passeio pela cidade?
Dizia isto muito empolgada, mas, no fundo do seu ser, o entusiasmo era nulo. Dona Arminda não queria sair de casa. Estava um tempo muito quente e seco e, mesmo sendo fim de semana, a cidade encontrava-se vazia. Dona Arminda apenas sugeriu esta ideia pois pensou que era o que seu marido José Carlos queria.
O seu filho João aceitou a sugestão, mas também a ele não agradava. Sentia-se muito cansado, devido à noite que tinha passado em claro. Não estava um dia bom para fazer uma viagem. João apenas aceitou porque pensava que era o que a sua mulher Maria queria.
Esta também não gostou nada da ideia. Achava que estava um péssimo dia para dar um passeio, tal como os outros. Porém, não demonstrou o seu desagrado. Acabou por aceitar, pois pensou que todos queriam isso.
Bem, já se pode imaginar a decisão de Sr. José Carlos. Tal como os outros, odiava a ideia. Mas, mesmo não sendo precisa a sua opinião, já que a maioria tinha aceitado, concordou. Acreditava que a sua mulher queria ir.
Então lá foram eles! Embarcaram no carro onde João era condutor, o seu pai o passageiro da frente, a sua mãe uma das passageiras de trás e a sua mulher a outra passageira.
Estacionaram o carro e andaram pelas ruas e ruelas à beira-rio da cidade. As copas das árvores não se situavam acima dos bancos e, por isso, se se quisessem sentar, tinham de ficar ao sol. A cidade estava completamente vazia. Por vezes, via-se uma pessoa a espreitar da janela de sua casa para ver quem passava na rua. Olhava para os nossos protagonistas com um olhar de desprezo, pensando claramente: “Tolinhos!”. O sol seco e quente caía os seus raios na cabeça deles e queimavam-lhes a pele. Estava um péssimo dia para passear.
Depois deste desastroso passeio à beira-rio, João, Maria, Dona Arminda e
José Carlos decidiram – agora concretamente – voltar para casa. Entraram no
carro de João e foram para casa.
Então, já em casa, concordaram que o passeio tinha sido péssimo. E, aqui, a falta de comunicação foi desvendada.
- Eu não queria ir! Só aceitei porque achei que faria bem ao Zeca. Eu não queria ir! – disse Dona Arminda.
E não era só ela! Ninguém queria ir! Toda a gente sabia que estava um péssimo dia para fazer um passeio, porém todos concordaram em fazê-lo. Como a falta de comunicação nos troca as voltas!
Logo a seguir a este comentário, outros começaram a surgir e, aos poucos,
cada um foi concluindo que se comunicou mal. Deviam ter demonstrado o que
sentiam e não tomar aquela decisão, já que, no final de contas, o passeio
não foi um acontecimento aprazível.
António Cardoso
2020
Fonte da imagem: https://conhecimentocientifico.r7.com/ponto-de-interrogacao/

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